Ansiedade: quando o corpo entra em alerta e não consegue mais desligar
- Vanessa Alencar
- há 1 dia
- 3 min de leitura

A ansiedade não surge do nada. Ela se constrói aos poucos, quase de forma invisível, até o momento em que passa a ocupar espaço demais na mente e no corpo. No início, parece apenas preocupação excessiva, uma dificuldade maior para relaxar ou aquela sensação constante de que algo ruim pode acontecer. Com o tempo, o corpo começa a reagir como se estivesse sempre diante de uma ameaça real, mesmo quando tudo aparentemente está sob controle.
Do ponto de vista biológico, a ansiedade é um mecanismo de sobrevivência. O cérebro humano foi programado para identificar riscos e reagir rapidamente a eles. Quando percebe perigo, ele ativa o sistema conhecido como “luta ou fuga”, liberando hormônios como adrenalina e cortisol. Essa resposta aumenta os batimentos cardíacos, acelera a respiração, contrai os músculos e deixa a mente em estado de alerta máximo. Em situações reais de perigo, isso é extremamente útil. O problema surge quando esse sistema permanece ativado de forma constante, sem que exista uma ameaça concreta.
Em pessoas ansiosas, o cérebro passa a interpretar situações cotidianas como perigosas. Pensamentos se tornam mais acelerados, o corpo permanece tenso e a mente entra em um ciclo de antecipação negativa. Estudos em neurociência mostram que a amígdala cerebral — região responsável pelo processamento do medo — tende a ficar hiperativa, enquanto áreas responsáveis por regular emoções e avaliar a realidade têm mais dificuldade em “frear” essas reações. É como se o alarme estivesse sempre ligado, mesmo sem incêndio.
Esse estado contínuo de alerta explica por que a ansiedade não se limita à mente. O corpo fala, e fala alto. Palpitações, falta de ar, dor no peito, sudorese, tremores, tensão muscular e desconfortos gastrointestinais são manifestações comuns. Muitas pessoas acreditam estar tendo problemas cardíacos ou outras doenças graves, quando, na verdade, estão vivenciando a resposta fisiológica da ansiedade. Isso não significa que “está tudo na cabeça”, mas sim que mente e corpo funcionam como um sistema integrado.
Outro ponto importante é que a ansiedade raramente aparece de forma repentina. Pesquisas longitudinais indicam que, anos antes de um quadro mais intenso, muitas pessoas já apresentam sinais sutis: preocupação excessiva, dificuldade de desligar a mente, medo constante do futuro e sensação de exaustão mental. Esses sinais costumam ser ignorados ou normalizados, até que o organismo não consegue mais sustentar esse estado de tensão prolongada.
Com o tempo, esse padrão pode evoluir para diferentes manifestações clínicas, como ansiedade generalizada, crises de pânico, fobias ou ansiedade social. Apesar das diferenças entre esses quadros, todos compartilham a mesma base: um sistema nervoso que aprendeu a reagir com medo de forma exagerada. E aqui é importante desfazer um mito comum — ansiedade não é falta de força de vontade, nem ausência de pensamento positivo. Ela envolve circuitos cerebrais, memórias emocionais e respostas automáticas que não se desligam apenas com esforço racional.
A boa notícia é que a ansiedade tem tratamento. Psicoterapia, especialmente abordagens baseadas em evidências científicas, ajuda a pessoa a compreender seus padrões de pensamento, regular emoções e reinterpretar situações que antes eram percebidas como ameaçadoras. Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico também é indicado, auxiliando na regulação dos neurotransmissores e reduzindo a hiperativação do sistema de alerta. Além disso, mudanças no estilo de vida — como sono adequado, atividade física regular e redução de estímulos excessivos — têm papel fundamental no processo de recuperação.
Viver em estado constante de ansiedade não é normal, mesmo que seja comum. O cansaço mental, a sensação de estar sempre no limite e o medo constante não precisam fazer parte da rotina. Buscar ajuda profissional é um passo de autocuidado e consciência. Quando o cérebro aprende que não precisa estar em alerta o tempo todo, o corpo finalmente encontra espaço para descansar — e a vida volta a ter mais leveza.
Referências
American Psychiatric Association. DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5ª ed. Arlington, VA: American Psychiatric Publishing, 2014.
Beck, A. T.; Emery, G.; Greenberg, R. L. Anxiety Disorders and Phobias: A Cognitive Perspective. New York: Basic Books, 2005.
LeDoux, J. Anxious: Using the Brain to Understand and Treat Fear and Anxiety. New York: Viking, 2015.
National Institute of Mental Health (NIMH). Anxiety Disorders.Disponível em: https://www.nimh.nih.gov
World Health Organization (WHO). Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates. Geneva: WHO, 2017.
Craske, M. G. et al. Anxiety disorders. Nature Reviews Disease Primers, 3, 17024, 2017.
Stein, M. B.; Sareen, J. Clinical practice. Generalized Anxiety Disorder. The New England Journal of Medicine, 373(21), 2059–2068, 2015.
Comentários