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Depressão: quando o peso não está só nos pensamentos, mas no corpo inteiro

  • Foto do escritor: Vanessa Alencar
    Vanessa Alencar
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

A depressão não é apenas tristeza.Ela não se resume a dias ruins, desânimo passageiro ou falta de motivação. A depressão é uma condição que altera a forma como a pessoa sente, pensa, percebe a si mesma e interage com o mundo. Ela muda o ritmo da vida por dentro, mesmo quando, por fora, tudo parece “normal”.

Muitas pessoas convivem com a depressão em silêncio. Trabalham, estudam, cuidam da casa, sorriem quando necessário — mas carregam uma sensação constante de cansaço, vazio ou perda de sentido. Não é falta de força, nem ingratidão. É o cérebro funcionando em um estado diferente do habitual.

Do ponto de vista biológico, a depressão envolve alterações em circuitos cerebrais responsáveis pelo humor, pela motivação e pela regulação emocional. Regiões como o córtex pré-frontal, o hipocampo e os sistemas de neurotransmissores — especialmente serotonina, dopamina e noradrenalina — passam a funcionar de forma menos eficiente. Isso afeta diretamente a capacidade de sentir prazer, tomar decisões e manter energia para as atividades do dia a dia.

Um dos aspectos mais difíceis da depressão é que ela se instala aos poucos. No início, pode parecer apenas cansaço excessivo, perda de interesse por coisas que antes davam prazer ou dificuldade de concentração. Com o tempo, esses sinais se intensificam e começam a interferir na rotina, nos relacionamentos e na autoestima. A pessoa passa a se cobrar por não conseguir reagir, o que só aumenta o sofrimento.

A depressão também se manifesta no corpo. Alterações no sono, no apetite, dores sem causa aparente, sensação de peso físico, lentidão nos movimentos e exaustão constante são comuns. Muitas vezes, o corpo adoece antes mesmo de a pessoa conseguir nomear o que está sentindo emocionalmente. Por isso, não é raro que o primeiro pedido de ajuda aconteça em consultórios médicos, e não em atendimentos psicológicos.

Outro ponto importante é que a depressão não tem uma única causa. Ela surge da combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Histórico familiar, experiências de perda, traumas, estresse crônico, isolamento emocional e sobrecarga constante podem contribuir para o desenvolvimento do quadro. Isso explica por que duas pessoas vivendo situações semelhantes podem reagir de formas completamente diferentes.

Existem diferentes formas de depressão. Algumas pessoas apresentam sintomas mais persistentes e silenciosos, como na depressão persistente (distimia). Outras vivenciam episódios mais intensos, com grande impacto funcional. Independentemente da forma, o sofrimento é real e merece atenção. Minimizar a dor emocional ou comparar sofrimentos apenas afasta ainda mais quem precisa de ajuda.

Um dos maiores mitos sobre a depressão é a ideia de que ela se resolve apenas com força de vontade. Frases como “anime-se”, “pense positivo” ou “isso é falta de ocupar a cabeça” desconsideram completamente a complexidade da condição. A depressão não é preguiça, fraqueza ou escolha. Ela envolve alterações reais no funcionamento do cérebro e na forma como a pessoa percebe a si mesma e o mundo.

A boa notícia é que a depressão tem tratamento, e ele é eficaz. A psicoterapia é fundamental para ajudar a pessoa a compreender seus padrões de pensamento, elaborar emoções, ressignificar experiências e reconstruir o sentido da própria história. Em muitos casos, o acompanhamento psiquiátrico também é indicado, auxiliando na regulação dos neurotransmissores e na redução dos sintomas mais intensos. Associado a isso, mudanças graduais no estilo de vida — como rotina de sono, alimentação, atividade física e rede de apoio — fazem parte do processo de recuperação.

Viver com depressão não precisa ser uma sentença permanente. Com o cuidado adequado, é possível recuperar energia, interesse pela vida e conexão emocional. Procurar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade consigo mesmo. Quando o sofrimento deixa de ser carregado sozinho, o caminho para a melhora se torna possível.


Referências científicas

American Psychiatric Association. DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5ª ed. Arlington, VA: American Psychiatric Publishing, 2014.

World Health Organization (WHO). Depression. Geneva: WHO, 2023.

National Institute of Mental Health (NIMH). Depression.Disponível em: https://www.nimh.nih.gov

Beck, A. T. Depression: Causes and Treatment. University of Pennsylvania Press, 2009.

Malhi, G. S. et al. Depression. The Lancet, 392(10161), 2299–2312, 2018.

Kupfer, D. J.; Frank, E.; Phillips, M. L. Major depressive disorder: new clinical, neurobiological, and treatment perspectives. The Lancet, 379(9820), 1045–1055, 2012.

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