Transtornos do sono: quando descansar deixa de ser automático e o corpo não consegue desligar
- Vanessa Alencar
- há 1 dia
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Dormir deveria ser um processo natural. O corpo desacelera, a mente silencia e o descanso acontece. Mas, para muitas pessoas, o sono se torna um desafio diário. Deitar e não conseguir dormir, acordar várias vezes durante a noite ou despertar já cansado são sinais de que algo não está funcionando bem. Os transtornos do sono não afetam apenas a noite — eles impactam diretamente o humor, a concentração, a saúde física e a qualidade de vida.
O sono é um processo biológico essencial, regulado por um delicado equilíbrio entre o relógio biológico, os hormônios e o sistema nervoso. Durante a noite, o organismo passa por ciclos que envolvem fases de sono leve, profundo e sono REM, fundamentais para a recuperação física, a consolidação da memória e a regulação emocional. Quando esses ciclos são interrompidos ou desorganizados, o corpo não consegue se restaurar adequadamente.
Os transtornos do sono englobam uma série de condições diferentes. A insônia é a mais conhecida e envolve dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou sensação de descanso insuficiente. Outros quadros incluem apneia do sono, caracterizada por pausas na respiração durante a noite; distúrbios do ritmo circadiano, quando o relógio biológico está desalinhado; parassonias, como sonambulismo e pesadelos frequentes; e hipersonia, marcada por sonolência excessiva durante o dia.
Esses transtornos raramente surgem isolados. Ansiedade, depressão, estresse crônico e burnout estão fortemente associados a alterações do sono. Um cérebro em estado constante de alerta tem dificuldade para desacelerar. Pensamentos acelerados, preocupação excessiva e tensão corporal mantêm o sistema nervoso ativado, mesmo quando o corpo está exausto. Com o tempo, cria-se um ciclo: dorme-se mal, o dia se torna mais difícil, e a noite seguinte fica ainda mais comprometida.
O impacto dos transtornos do sono vai muito além do cansaço. A privação ou má qualidade do sono afeta a atenção, a memória, a tomada de decisões e o controle emocional. A longo prazo, está associada a maior risco de doenças cardiovasculares, alterações metabólicas, queda da imunidade e agravamento de quadros psiquiátricos. Dormir mal não é apenas um incômodo — é um fator importante de adoecimento.
Muitas pessoas tentam resolver o problema por conta própria, recorrendo a medicamentos sem orientação ou criando estratégias que acabam piorando a situação, como passar horas na cama tentando forçar o sono. Isso aumenta a ansiedade noturna e reforça a associação entre cama e frustração. Por isso, o tratamento adequado é fundamental.
A abordagem dos transtornos do sono envolve compreender a causa do problema. Psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I), é considerada uma das intervenções mais eficazes. Ela ajuda a modificar padrões de pensamento, comportamentos e hábitos que mantêm o distúrbio. Em alguns casos, o acompanhamento médico é necessário, principalmente quando há suspeita de apneia do sono ou necessidade de intervenção medicamentosa.
Além do tratamento profissional, mudanças no estilo de vida fazem parte do cuidado com o sono. Regularidade de horários, redução de estímulos antes de dormir, atenção ao uso de telas, manejo do estresse e criação de uma rotina noturna mais previsível ajudam o corpo a reconhecer o momento de descansar. O objetivo não é apenas dormir mais rápido, mas permitir que o sono volte a ser restaurador.
Transtornos do sono não devem ser normalizados. Viver constantemente cansado, irritado ou sem energia não é algo que precisa ser aceito. Quando o sono melhora, a mente clareia, o corpo responde melhor e a vida ganha mais equilíbrio. Buscar ajuda é um passo essencial para recuperar algo básico, mas fundamental: o direito de descansar.
Referências científicas
American Academy of Sleep Medicine (AASM). International Classification of Sleep Disorders – ICSD-3. Darien, IL, 2014.
World Health Organization (WHO). Sleep disorders. Geneva: WHO.
National Institutes of Health (NIH). Sleep Disorders.Disponível em: https://www.nhlbi.nih.gov
Buysse, D. J. Sleep health: can we define it? Does it matter? Sleep, 37(1), 9–17, 2014.
Morin, C. M.; Benca, R. Chronic insomnia. The Lancet, 379(9821), 1129–1141, 2012.



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