Estresse crônico e trauma (TEPT): quando o corpo permanece preso ao passado
- Vanessa Alencar
- há 1 dia
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O estresse faz parte da vida. Ele nos ajuda a reagir, a resolver problemas e a lidar com desafios. Mas quando esse estado de alerta se prolonga e se torna constante, o corpo e a mente começam a pagar um preço alto. O estresse crônico e o trauma compartilham um ponto central: ambos mantêm o organismo em modo de sobrevivência, mesmo quando o perigo já passou.
O estresse crônico ocorre quando o sistema de resposta ao estresse é ativado repetidamente, sem tempo suficiente para recuperação. Pressões contínuas no trabalho, conflitos emocionais, insegurança financeira, excesso de responsabilidades ou ausência de descanso mantêm o corpo exposto a níveis elevados de cortisol por longos períodos. Com o tempo, isso afeta o funcionamento do cérebro, do sistema imunológico e da regulação emocional.
O trauma psicológico surge quando uma pessoa vivencia ou presencia situações que ultrapassam sua capacidade de lidar naquele momento, como violência, acidentes, perdas abruptas ou ameaças à vida. Em alguns casos, o organismo consegue processar a experiência ao longo do tempo. Em outros, o evento traumático permanece “ativo” no sistema nervoso, dando origem ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
No TEPT, o cérebro passa a reagir como se o perigo ainda estivesse presente. Estímulos neutros — um som, um cheiro, uma imagem — podem ativar respostas intensas de medo ou desconforto. A amígdala cerebral se mantém hiperativa, enquanto áreas responsáveis por contextualizar a experiência e sinalizar segurança têm dificuldade em exercer seu papel regulador. O passado invade o presente de forma involuntária.
Os sintomas do TEPT costumam se organizar em alguns grandes grupos. Há a revivência do trauma, por meio de lembranças intrusivas, pesadelos ou flashbacks. Há também a evitação de situações, lugares ou pessoas que remetam ao evento traumático. Além disso, são comuns alterações no humor, sensação de distanciamento emocional, irritabilidade e estado constante de hipervigilância. O sono costuma ser prejudicado, e o corpo permanece tenso, como se nunca pudesse relaxar totalmente.
O estresse crônico e o trauma frequentemente se sobrepõem. Pessoas expostas a estresse prolongado podem se tornar mais vulneráveis ao desenvolvimento de sintomas traumáticos. Da mesma forma, o TEPT mantém o organismo em estado de estresse contínuo, agravando o desgaste físico e emocional. Esse ciclo pode levar a quadros associados de ansiedade, depressão, burnout e doenças psicossomáticas.
Um aspecto importante é que o trauma não depende apenas da gravidade objetiva do evento, mas da forma como ele foi vivido e processado. Experiências repetidas de invalidação emocional, abandono ou violência psicológica também podem gerar respostas traumáticas. O sofrimento não deve ser medido ou comparado; ele precisa ser reconhecido e cuidado.
O tratamento do estresse crônico e do TEPT envolve ajudar o sistema nervoso a sair do modo de sobrevivência e recuperar a sensação de segurança. Psicoterapia é fundamental nesse processo. Abordagens baseadas em evidência, como terapias focadas no trauma, terapia cognitivo-comportamental e EMDR, auxiliam na elaboração da experiência traumática e na regulação emocional. Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico é indicado para aliviar sintomas intensos e permitir maior estabilidade durante o processo terapêutico.
Além do tratamento clínico, estratégias de autocuidado e reorganização da rotina fazem parte da recuperação. Sono adequado, práticas que favoreçam a regulação do sistema nervoso, fortalecimento de vínculos seguros e redução de estímulos estressantes ajudam o corpo a aprender que o perigo passou. O objetivo não é apagar o passado, mas permitir que ele deixe de controlar o presente.
Viver em estado constante de alerta não é normal, mesmo que tenha se tornado comum. Estresse crônico e trauma têm tratamento. Quando o corpo encontra espaço para descansar e a mente consegue elaborar o que foi vivido, é possível recuperar equilíbrio, presença e qualidade de vida.
Referências científicas
American Psychiatric Association. DSM-5-TR – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Washington, DC: APA, 2022.
World Health Organization (WHO). Post-traumatic stress disorder. Geneva: WHO.
van der Kolk, B. The Body Keeps the Score. New York: Viking, 2014.
McEwen, B. S. Protective and damaging effects of stress mediators. New England Journal of Medicine, 338(3), 171–179, 1998.
Brewin, C. R.; Andrews, B.; Valentine, J. D. Meta-analysis of risk factors for posttraumatic stress disorder. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 68(5), 748–766, 2000.



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