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Transtornos de imagem e autoestima: quando o olhar sobre si mesmo se torna fonte de sofrimento

  • Foto do escritor: Vanessa Alencar
    Vanessa Alencar
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

A forma como uma pessoa se vê influencia diretamente como ela se sente, se relaciona e ocupa espaço no mundo. Ter inseguranças faz parte da experiência humana, mas quando a autoimagem se torna distorcida e a autoestima passa a depender exclusivamente da aparência, o sofrimento deixa de ser pontual e passa a fazer parte da rotina. Os transtornos de imagem e autoestima não se resumem à vaidade ou insatisfação estética; eles envolvem uma relação adoecida com o próprio corpo e com o próprio valor.

A construção da autoimagem começa cedo e é moldada por múltiplos fatores: experiências emocionais, relações familiares, comentários recebidos ao longo da vida e, cada vez mais, pela influência constante das redes sociais. Vivemos em um ambiente que reforça padrões irreais de beleza, sucesso e felicidade. A comparação constante, muitas vezes automática, faz com que a pessoa passe a se perceber sempre em desvantagem, como se nunca fosse suficiente.

Do ponto de vista psicológico, transtornos de imagem envolvem distorções na forma como o corpo é percebido e avaliado. A pessoa pode enxergar defeitos inexistentes ou superestimar características que considera negativas. Essa percepção distorcida costuma vir acompanhada de autocrítica intensa, vergonha, medo de julgamento e necessidade constante de validação externa. O espelho deixa de refletir apenas uma imagem e passa a ativar emoções dolorosas.

Entre os quadros mais conhecidos está o Transtorno Dismórfico Corporal, caracterizado por preocupação excessiva com supostos defeitos físicos, muitas vezes imperceptíveis para outras pessoas. No entanto, problemas de imagem e autoestima não se limitam a diagnósticos formais. Muitas pessoas vivem em sofrimento significativo sem preencher critérios clínicos específicos, mas com impacto real na qualidade de vida.

A autoestima fragilizada afeta diversas áreas da vida. Relações sociais podem ser evitadas por medo de exposição, oportunidades são recusadas por insegurança e o diálogo interno se torna cada vez mais hostil. Em alguns casos, esse padrão está associado a transtornos alimentares, ansiedade, depressão e uso excessivo de procedimentos estéticos como tentativa de aliviar o desconforto interno.

A influência da tecnologia e das redes sociais intensifica esse cenário. Imagens editadas, filtros e narrativas de perfeição criam uma referência distorcida da realidade. A exposição contínua a esses conteúdos reforça a ideia de que valor pessoal está diretamente ligado à aparência, alimentando ciclos de comparação e insatisfação. Para muitos, o corpo se torna um projeto interminável de correção.

O tratamento dos transtornos de imagem e autoestima envolve reconstruir a relação da pessoa consigo mesma. Psicoterapia é fundamental para identificar crenças centrais negativas, trabalhar a autocompaixão, desenvolver uma percepção mais realista do próprio corpo e fortalecer o senso de valor para além da aparência. Em casos mais intensos, o acompanhamento psiquiátrico pode ser indicado, especialmente quando há comorbidades associadas.

Aprender a se olhar com menos julgamento não acontece da noite para o dia. É um processo gradual de escuta interna, questionamento de padrões impostos e construção de uma identidade mais integrada. A autoestima saudável não significa amar cada detalhe do próprio corpo o tempo todo, mas conseguir se respeitar, se aceitar e se tratar com dignidade, mesmo nos dias difíceis.

Transtornos de imagem e autoestima têm tratamento. Quando o sofrimento deixa de ser carregado em silêncio e passa a ser acolhido em um espaço seguro, é possível transformar o modo como a pessoa se enxerga e se posiciona no mundo. O cuidado com a saúde mental começa, muitas vezes, no modo como aprendemos a olhar para nós mesmos.


Referências científicas


American Psychiatric Association. DSM-5-TR – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Washington, DC: APA, 2022.

Phillips, K. A. The Broken Mirror: Understanding and Treating Body Dysmorphic Disorder. Oxford University Press, 2005.

Cash, T. F.; Smolak, L. Body Image: A Handbook of Science, Practice, and Prevention. New York: Guilford Press, 2011.

Fardouly, J. et al. Social media and body image concerns. Body Image, 13, 38–45, 2015.

World Health Organization (WHO). Mental health and body image. Geneva: WHO.


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