Transtornos relacionados à tecnologia: quando a conexão constante começa a afetar a saúde mental
- Vanessa Alencar
- há 1 dia
- 3 min de leitura

A tecnologia faz parte da vida moderna. Ela aproxima pessoas, facilita o trabalho, amplia o acesso à informação e oferece entretenimento imediato. O problema não está no uso em si, mas na forma como ele passa a ocupar espaço demais na rotina. Quando a necessidade de estar sempre conectado gera ansiedade, perda de controle ou prejuízos à vida pessoal e profissional, a tecnologia deixa de ser aliada e passa a impactar a saúde mental.
Os transtornos relacionados à tecnologia não se resumem a “excesso de celular”. Eles envolvem padrões de comportamento marcados por uso compulsivo, dificuldade de desconexão, dependência emocional de dispositivos e sofrimento quando o acesso é interrompido. O cérebro, especialmente sensível a recompensas rápidas, responde a notificações, curtidas e novidades com liberação de dopamina, reforçando o desejo de repetir o comportamento. Com o tempo, isso pode alterar a capacidade de atenção, regulação emocional e tolerância ao tédio.
Entre os quadros mais discutidos estão o uso problemático de internet, a dependência de redes sociais, o transtorno por jogos eletrônicos e a nomofobia — medo intenso de ficar sem o celular ou sem acesso à internet. Embora nem todos estejam formalmente classificados como transtornos mentais em manuais diagnósticos, seus impactos funcionais são reais e bem documentados pela literatura científica.
Os sinais costumam surgir de forma gradual. A pessoa passa a checar o celular repetidamente, perde a noção do tempo online, sente irritação ou ansiedade quando não pode acessar dispositivos e começa a negligenciar sono, alimentação, estudos, trabalho ou relações presenciais. Em muitos casos, a tecnologia se torna uma estratégia de escape emocional, usada para aliviar tédio, solidão, estresse ou desconfortos internos.
O impacto no sono é um dos primeiros a aparecer. O uso excessivo de telas, especialmente à noite, interfere no ritmo circadiano e na produção de melatonina, dificultando o início e a manutenção do sono. Além disso, a estimulação constante mantém o cérebro em estado de alerta, prejudicando o descanso. Esse ciclo de privação de sono tende a intensificar sintomas de ansiedade, irritabilidade e dificuldade de concentração.
Crianças e adolescentes merecem atenção especial. O cérebro em desenvolvimento é mais vulnerável a padrões compulsivos de recompensa. Estudos associam o uso excessivo de tecnologia nessa fase a dificuldades de atenção, impulsividade, problemas emocionais e prejuízos no desempenho escolar. Isso não significa demonizar a tecnologia, mas reconhecer a importância de limites claros e acompanhamento adequado.
Em adultos, o uso problemático de tecnologia está frequentemente ligado a sobrecarga de trabalho, pressão por disponibilidade constante e dificuldade de separar vida pessoal e profissional. A sensação de estar sempre “ligado” impede o descanso mental e favorece quadros de estresse crônico, burnout e ansiedade. A desconexão deixa de ser uma escolha e passa a gerar culpa ou medo de perder algo importante.
O tratamento dos transtornos relacionados à tecnologia envolve, прежде de tudo, consciência. Psicoterapia ajuda a identificar gatilhos emocionais, padrões de uso e necessidades que estão sendo supridas de forma disfuncional pelo ambiente digital. Estratégias de autorregulação, manejo do tempo de tela, reestruturação de hábitos e fortalecimento de atividades offline fazem parte do processo. Em casos associados a outros transtornos, como ansiedade ou depressão, o tratamento integrado é fundamental.
O objetivo não é eliminar a tecnologia, mas recuperar o controle sobre seu uso. Quando a relação com o digital se torna mais consciente, o tempo online deixa de competir com o sono, os vínculos afetivos e o bem-estar emocional. Estar conectado não precisa significar estar disponível o tempo todo. Cuidar da saúde mental também envolve aprender a desconectar.
Referências científicas
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