Burnout: quando o cansaço deixa de ser normal e o trabalho começa a adoecer
- Vanessa Alencar
- há 1 dia
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Sentir cansaço ao final de um dia intenso é esperado. O problema começa quando o descanso já não recupera, o sono não renova e a simples ideia de começar mais um dia de trabalho provoca exaustão, irritação ou vazio. O burnout não surge de repente. Ele se constrói silenciosamente, dia após dia, até o momento em que o corpo e a mente simplesmente não conseguem mais sustentar o ritmo.
Diferente do estresse comum, o burnout é um estado de esgotamento profundo relacionado ao contexto de trabalho. Ele não envolve apenas excesso de tarefas, mas uma combinação de pressão constante, cobranças elevadas, falta de reconhecimento, sensação de injustiça e perda de sentido no que se faz. Aos poucos, aquilo que antes motivava passa a pesar.
Do ponto de vista psicológico e neurobiológico, o burnout está ligado à ativação crônica do sistema de estresse. O organismo permanece por longos períodos em alerta, liberando cortisol de forma contínua. Com o tempo, esse estado provoca desgaste físico, emocional e cognitivo. A energia diminui, a concentração falha, a memória fica prejudicada e o corpo começa a dar sinais claros de sobrecarga.
A Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional, caracterizado por três dimensões principais: exaustão emocional, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e redução da sensação de eficácia profissional. Isso significa que a pessoa não apenas se sente cansada, mas passa a se desligar emocionalmente do que faz e a duvidar da própria competência.
Os sinais costumam aparecer de forma gradual. No início, surgem irritabilidade, dificuldade para relaxar, sensação constante de urgência e pensamentos recorrentes sobre trabalho, mesmo fora do expediente. Com o tempo, o cansaço se torna permanente, o sono perde qualidade e pequenas tarefas passam a exigir um esforço enorme. Muitas pessoas relatam sensação de vazio, apatia ou indiferença, como se estivessem funcionando no “piloto automático”.
O corpo também reage. Dores musculares frequentes, cefaleias, problemas gastrointestinais, alterações no apetite, queda da imunidade e palpitações são comuns. Em alguns casos, o burnout pode se confundir ou coexistir com quadros de ansiedade e depressão, o que torna ainda mais importante uma avaliação profissional adequada.
Um ponto essencial é entender que burnout não é fraqueza, falta de resiliência ou incapacidade de lidar com pressão. Ele surge, muitas vezes, em pessoas altamente comprometidas, responsáveis e exigentes consigo mesmas. Profissionais que se dedicam intensamente, que têm dificuldade em estabelecer limites ou que trabalham em ambientes cronicamente estressantes estão entre os mais afetados.
O tratamento do burnout envolve mais do que simplesmente “tirar férias”. Psicoterapia é fundamental para ajudar a pessoa a reconhecer padrões de funcionamento, ressignificar crenças ligadas à produtividade, reconstruir limites e recuperar o contato com suas próprias necessidades. Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico pode ser necessário, especialmente quando há sintomas depressivos ou ansiosos associados.
Além disso, mudanças no contexto de trabalho e no estilo de vida fazem parte do processo de recuperação. Rever cargas horárias, redefinir prioridades, estabelecer pausas reais, melhorar a qualidade do sono e fortalecer a rede de apoio são passos essenciais. O objetivo não é apenas voltar a produzir, mas aprender a trabalhar sem adoecer.
O burnout é um sinal de alerta importante. Ele indica que algo precisa mudar — não apenas na rotina, mas na forma como o trabalho ocupa espaço na vida. Buscar ajuda profissional não é desistir, é cuidar da própria saúde. Quando o esgotamento é reconhecido e tratado, é possível recuperar energia, clareza mental e sentido no que se faz.
Referências científicas
World Health Organization (WHO). Burn-out an “occupational phenomenon”. Geneva: WHO, 2019.
Maslach, C.; Leiter, M. P. Burnout. Annual Review of Psychology, 52, 397–422, 2001.
Maslach, C.; Jackson, S. E.; Leiter, M. P. Maslach Burnout Inventory Manual. 3rd ed. Palo Alto: Consulting Psychologists Press, 1996.
Schaufeli, W. B.; Taris, T. W. A critical review of the Job Demands-Resources Model. Work & Stress, 29(3), 193–210, 2014.
Salvagioni, D. A. J. et al. Physical, psychological and occupational consequences of job burnout. PLoS ONE, 12(10), e0185781, 2017.



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